Desgaste da coluna, dores e até perda de visão periférica: como manobras em voos da Esquadrilha da Fumaça podem afetar pilotos
Desgate da coluna, dores e perda da visão: como manobras em avião podem afetar pilotos Perda de consciência, visão em túnel, desgaste precoce da coluna e a...
Desgate da coluna, dores e perda da visão: como manobras em avião podem afetar pilotos Perda de consciência, visão em túnel, desgaste precoce da coluna e a sensação de pesar até 400 kg por alguns segundos. Ao g1, o capitão André Nery Lima Bezerra, de 35 anos, explicou como as manobras radicais realizadas a bordo do A-29 Super Tucano podem afetar o organismo dos pilotos da Esquadrilha da Fumaça. Apresentações da aeronave serão destaque do Domingo Aéreo na Academia da Força Aérea (AFA) neste domingo (1º), em Pirassununga (SP). O g1 São Carlos e Araraquara, em parceria com a EPTV , afiliada da TV Globo, transmite as acrobacias ao vivo pela primeira vez a partir das 9h30. 📱 Siga o g1 São Carlos e Araraquara no Instagram A aeronave consegue suportar forças de até sete vezes a gravidade durante as manobras, desempenho que permite que a aeronave execute acrobacias de alta precisão. Ou seja, um piloto com 80 kg, sob uma carga de 5G, sente como se pesasse cerca de 400 kg por alguns segundos. No dia a dia, o corpo está submetido a 1G, que é a força da gravidade da Terra. O capitão explicou que quando um elevador sobe ou desce, as pessoas sentem frio na barriga, sensação causada pela alteração momentânea na aceleração. 🔎 Força G (ou força-gravidade) é uma medida de aceleração que compara a força sentida por uma pessoa com a gravidade da Terra. No entanto, nas manobras aéreas, esse efeito é mais intenso, fazendo com que o piloto seja submetido a várias vezes a força da gravidade. "Na maioria das manobras que a Esquadrilha da Fumaça faz, essa variação chega a mais de três vezes a força da gravidade e algumas manobras passam de cinco vezes a força da gravidade. Na prática, o corpo que está ali dentro da aeronave está sendo submetido a um peso, uma força gravitacional de três a cinco vezes maior", explicou. Bezerra disse que em um voo normal com carga positiva, o piloto sente o peso corporal superior ao real. "É como se o seu corpo estivesse sendo espremido. É a sensação de ser espremido para baixo. Então, a aceleração gravitacional te espreme para dentro do avião." LEIA TAMBÉM: AO VIVO: Domingo Aéreo: g1 e EPTV transmitem pela 1ª vez as acrobacias da Esquadrilha da Fumaça PROGRAMAÇÃO: tudo o que você precisa saber sobre o Domingo Aéreo no interior de SP SUPER TUCANO: conheça o caça brasileiro que voa de ponta-cabeça, atinge 600 km/h e é usado pela Esquadrilha da Fumaça Hérnia, dores e perda da visão periférica: como manobras da Esquadrilha podem afetar pilotos Freepik, Reprodução Esquadrilha da Fumaça e Abbat/Pexels Por outro lado, em voos invertidos e com cargas gravitacionais negativas, o piloto se sente 'expulso' da aeronave. "É como se a física tentasse te expulsar para fora do avião, você sente todo o sangue pressionando a sua cabeça e os cintos e suspensórios do assento injetável te prendem no avião." 💀 Alterações fisiológicas no corpo Durante manobras que geram alta força G, o sangue tende a se concentrar na parte inferior do corpo. Com menos sangue chegando ao cérebro, a visão pode escurecer e, em casos extremos, o piloto pode sofrer um G-LOC, que é a perda temporária de consciência causada pela força gravitacional. "Como que isso é evitado? Existem alguns músculos no abdômen e nas pernas que o piloto está acostumado a contrair para fazer com que esse sangue volte para a parte de cima do corpo e impeça que você perca a consciência", revelou. Hérnia, dores e corpo pesando 400kg: como manobras em avião afetam corpo de pilotos De acordo com ele, o corpo dá indícios de que está entrando no processo de perda de consciência. "Quando o piloto começa a perceber esses primeiros sinais, ele precisa aumentar essa pressão na parte debaixo do corpo para ajudar o coração a jogar o sangue para cima." O primeiro sinal é óptico. "Você começa a perder a visão periférica e tua visão começa a fechar. Você começa a ter uma visão de túnel. Se você começou a perceber esse primeiro sinal, é que você precisa aumentar a pressão no abdômen e nas pernas." 🏥 Riscos à saúde Coluna Getty Images via BBC Segundo o capitão, os pilotos podem sofrer problemas na coluna a longo prazo. "Entre as nossas vértebras na coluna nós temos discos e esses discos servem exatamente para amortecer essa pressão que, ao longo dos anos, o seu corpo vai sofrendo. Pessoas que sofrem, por exemplo, de hérnia de disco sabem o quão doloroso, quão complicado é isso." Os pilotos que ficam sujeitos às compressões geradas pela força gravitacional com frequência sofrem o 'processo de envelhecimento de compressão dos discos' acelerado. "Então, quais são os cuidados que nós, pilotos, temos que ter? Primeiro, treinamento físico regular faz com que a estrutura muscular do core, da coluna, da cervical e dos braços seja mais fortalecida e isso, na prática, ajuda a, de certa forma, distribuir um pouco mais as pressões para que não vá tudo para a sua coluna", disse. Bezerra acrescentou que alongamentos e pilates ajudam a fazer com que a compressão na coluna não gere um problema precoce. "Mas pilotos de caça, pilotos de instrutores de voos aqui da Academia da Força Aérea, eventualmente, podem desenvolver questões de coluna precocemente por conta dessa questão da variação constante, rotineira, diária, da força G." Além de suportar a força G, os pilotos fazem movimentos repetitivos e intensos com os braços durante os treinamentos. Por exemplo, durante o voo invertido, para colocar a aeronave nessa posição e retorná-la ao voo normal, é necessário movimentar os comandos do avião de forma repetida. Esse esforço gera uma sobrecarga muscular, principalmente nos ombros, braços, tronco (core), abdômen e pernas. No caso dos pilotos da Esquadrilha, o movimento repetitivo exigido durante os treinamentos pode causar fadiga muscular, inflamações, tendinites e lesões no ombro. Além dos riscos das acrobacias pela falta de sangue no cérebro, os pilotos precisam lidar com o efeito contrário no voo invertido. Nessa situação, o sangue é empurrado à cabeça, aumentando a pressão nos vasos sanguíneos dos olhos, o que pode provocar o 'redout', quando a visão fica avermelhada devido ao excesso de sangue na região. 👁️ Blackout x Redout Blackout: Ocorre normalmente em cargas G positivas. O sangue deixa de chegar ao cérebro adequadamente. A visão escurece. Pode evoluir para perda de consciência (G-LOC). Redout: Ocorre em situações de G negativa. O sangue é empurrado para a cabeça. A visão pode ficar avermelhada. Em casos extremos, pode haver rompimento de vasos sanguíneos nos olhos. 🚀 Desorientação espacial Durante algumas acrobacias, especialmente na transição entre o voo invertido e o voo normal, o corpo pode 'enganar' o piloto. Isso ocorre porque o sistema vestibular, responsável pelo equilíbrio, tem dificuldade para interpretar mudanças bruscas de direção e aceleração. Nessas situações, os pilotos precisam confiar nas referências visuais e nos instrumentos da aeronave para evitar a chamada desorientação espacial. "Pode ser que na saída de algumas manobras ou no início de alguns movimentos, você tenha uma percepção de que o avião está fazendo algo que, na verdade, ele não está. Por isso que é muito importante que a gente, primeiro, saiba quais são esses momentos, tem momentos que você sabe que o corpo vai mentir pra você e, quando isso acontecer, você não se deixe ser levado pelo seu próprio corpo, você confie nas referências que te garantem que o avião está na posição que ele realmente está", explicou. 🩺 Preparação e recuperação física Preparação física dos pilotos inclui exercícios físicos, alimentação saudável e descanso Divulgação De acordo com o capitão, os pilotos são submetidos anualmente a uma bateria de exames para verificar a visão, coluna, funcionamento do sistema circulatório, coração, por exemplo. A equipe da Esquadrilha da Fumaça tem uma médica exclusiva com formação em medicina aeroespacial. "Ela cuida da nossa saúde, ela fica atenta à nossa rotina, ela é um elo de segurança do nosso voo. A nossa médica tem um olhar muito atento para questões que possam, no ponto de vista dos fatores humanos, afetar o desempenho operacional do piloto em voo", disse. A alimentação, o descanso e ajustes de rotina durante as viagens permitem que o piloto esteja preparado para o voo. Além disso, eles evitam o consumo de bebidas alcoólicas em um período de 24 horas antes das apresentações. Conheça o A-29 Super Tucano da Esquadrilha da Fumaça Arte g1 "Mas não existe uma alimentação diferenciada, específica ou uma rotina de treinamento muito específica para o piloto da Esquadrilha da Fumaça. O que a gente está muito acostumado é a evitar exageros [...] Treinamento físico, uma rotina ativa de atividades, de academia e esportes, alimentação saudável e nada além daquilo que a medicina e o bem-estar preveem para a vida de todos", disse. Bezerra explicou que a recuperação após o voo é a mesma de uma atividade física intensa. "É bastante hidratação, alimentação e repouso para que a gente esteja pronto para realizar o novo voo. Trazendo essa curiosidade para números, um piloto na Esquadrilha da Fumaça, em hipótese alguma, realiza mais de três voos por dia." Segundo ele, o cansaço pode influenciar no julgamento e tomada de decisões do piloto, além de afetar a capacidade de gerenciamento de risco. "Aí pode ser que o voo se torne perigoso, então a gente cuida muito dessa parte para que não haja nenhum tipo de risco relacionado à fadiga." A-29 Super Tucano, usado pela Esquadrilha da Fumaça Fabio Rodrigues/g1 REVEJA OS VÍDEOS DA EPTV: Veja mais notícias da região no g1 São Carlos e Araraquara