Eleições em SP: o que cabe ao governo do estado na Saúde
Eleições 2026: conheça as responsabilidades - e desafios - do Governo do Estado na área da Saúde Há sete anos, a empregada doméstica Josicleide dos Santo...
Eleições 2026: conheça as responsabilidades - e desafios - do Governo do Estado na área da Saúde Há sete anos, a empregada doméstica Josicleide dos Santos Moura convive com a mesma preocupação: garantir que a filha, diagnosticada com epilepsia, não fique sem a medicação que precisa para sobreviver. Parte dessa rotina passa por uma farmácia especializada do SUS, na Zona Leste de São Paulo, onde pacientes retiram remédios de alto custo fornecidos pelo poder público. O atendimento a famílias como a de Josicleide depende de uma estrutura desconhecida por muita gente. Todos os meses, mais de 80 toneladas de medicamentos são distribuídas pelo governo estadual para unidades de saúde espalhadas pelos 645 municípios paulistas. É uma engrenagem que ajuda a levar tratamentos essenciais a milhares de pacientes e revela uma das responsabilidades mais importantes do estado na área da saúde. Mas o papel do governador vai muito além da distribuição de remédios. Hospitais estaduais, ambulatórios especializados, maternidades de referência e parte da organização das filas por transplantes também envolvem diretamente a atuação do governo paulista. Saúde é o tema da segunda reportagem na série especial do g1 e do SP2. Ao longo das próximas semanas, as reportagens vão mostrar como as decisões do governo paulista afetam a vida da população em áreas essenciais. Leitos do Hospital Estadual de Franca (SP). João Valério/Governo Estado SP Quem é responsável pela saúde pública? Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) seja frequentemente visto como uma estrutura única, o atendimento é dividido entre União, estados e municípios. As prefeituras são responsáveis principalmente pelos serviços de atenção básica, realizados nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Assistências Médicas Ambulatoriais (AMAs), Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e por equipes de Saúde da Família. Já o governo do estado responde pela maior parte dos atendimentos de média e alta complexidade – aqueles que exigem estrutura especializada e maior investimento – e também por financiar parte dos serviços executados pelos municípios. Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Presidente Prudente (SP) Leonardo Jacomini/g1 Atualmente, a rede estadual conta com: 90 hospitais públicos; 63 Ambulatórios Médicos de Especialidades (AMEs); Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross), responsável por organizar a fila para acesso a diversos procedimentos especializados. Segundo a médica sanitarista e doutora em Saúde Pública Aparecida Linhares Pimenta, esta função é especialmente importante porque muitos municípios não têm condições de oferecer serviços mais complexos. "O estado de São Paulo tem mais de 60% dos municípios com menos de 20 mil habitantes. Esses municípios não têm condições de ter um hospital de alta complexidade, de ter um ambulatório de alta complexidade. Então, é responsabilidade do governo do estado garantir este atendimento de média e alta complexidade para todos os municípios do estado", explica a especialista. 'Fura fila' de bariátrica no HC da Unicamp: hospital encontrou ao menos 49 casos Filas, especialistas e desigualdade regional Garantir o acesso aos serviços de saúde em um estado com 46 milhões de habitantes é um dos principais desafios da administração estadual. E isso passa, entre outros fatores, pela distribuição dos profissionais de saúde. Embora São Paulo concentre um dos maiores contingentes de médicos do país, eles não estão distribuídos de forma equilibrada pelo território. Enquanto regiões metropolitanas como a de São Paulo e Campinas concentram milhares de profissionais, cidades do interior enfrentam dificuldades para atrair e manter especialistas. Os maiores vazios de atendimento se concentram principalmente no sul e no oeste do estado. Além disso, quase 90% dos 645 municípios paulistas têm menos de três médicos para cada mil habitantes. Hospitais que atendem mais de uma cidade A lógica da saúde estadual é, muitas vezes, regionalizada. Em vez de cada município manter uma estrutura própria de alta complexidade, hospitais e ambulatórios atendem pacientes de diversas cidades. É o caso da Maternidade Estadual de Franco da Rocha, na Grande São Paulo. A unidade recebe os pacientes da cidade e também das vizinhas Caieiras, Cajamar, Francisco Morato e Mairiporã. Como funciona pelo SUS e de portas abertas, a maternidade atende tanto gestantes quanto mulheres com demandas ginecológicas de urgência. Segundo a direção da unidade, são realizados entre 190 e 210 partos por mês, além de cerca de 1,2 mil atendimentos mensais no pronto-socorro. A médica sanitarista Aparecida Linhares Pimenta aponta a mortalidade materna no estado como um dos gargalos na área da saúde, e defende que o governador dê prioridade ao tema para reduzir os índices ao nível pré-pandemia. "No estado de São Paulo, nós temos poucos ambulatórios de pré-natal de alto risco e poucas maternidades para dar assistência às mulheres que vão fazer um parto numa situação de alto risco. Isso faz com que a nossa mortalidade materna venha aumentando desde a pandemia", afirma. A fila dos transplantes A atuação do estado também está presente em uma das áreas mais complexas do SUS: os transplantes. É por meio da Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross) que são organizadas diversas filas por atendimento especializado, incluindo procedimentos de alta complexidade. Em 2025, quase 9 mil transplantes foram realizados em São Paulo. Apesar disso, mais de 28 mil pessoas continuavam aguardando por um órgão. Entre elas está Marcelo Cruz da Silva, de 42 anos. Depois de uma pneumonia que provocou complicações no coração, nos rins e no pâncreas, ele passou a depender de sessões frequentes de hemodiálise e entrou, em abril de 2024, na fila para um transplante duplo de rim e pâncreas. "Durante muito tempo eu vivi um dia por vez. Mas, quando te dão uma esperança, mesmo que mínima, as coisas desabrocham", conta.